POR QUE AMAR AQUELES QUE ME ODEIAM? QUANDO O PERDÃO PARECE IMPOSSÍVEL
Primeira Leitura: 1 Samuel 26,2.7-9.11-13.22-23
Salmo Responsorial: Sl 102(103),1-4.8.10.12-13
Segunda Leitura: 1 Coríntios 15,45-49
Evangelho: Lucas 6,27-38
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A história da humanidade testemunhou alguns dos atos mais dolorosos de ódio e traição. Um dos exemplos mais marcantes dessa realidade é a história de Nelson Mandela e o regime do apartheid na África do Sul. Mandela, que sofreu 27 anos de prisão sob um sistema baseado no ódio e na opressão racial, tinha todos os motivos para odiar seus inimigos. Ele foi submetido à humilhação, isolamento e crueldade, mas ao sair da prisão, não buscou vingança. Em vez disso, escolheu o perdão, uma decisão que chocou muitos. Seu ato de perdoar aqueles que o perseguiram não foi um sinal de fraqueza, mas de força—uma força que transformou uma nação e desarmou aqueles que antes o viam como inimigo. Esse exemplo nos obriga a refletir sobre a natureza do ódio, o poder do perdão e a dificuldade de amar aqueles que nos fazem mal, conforme as leituras deste domingo nos ensinam.
É natural perguntar: “Por que amar aqueles que me odeiam?” O conceito de ódio é uma realidade profundamente enraizada na experiência humana. A palavra grega para ódio, μῖσος (misos), significa hostilidade profunda, aversão ou desprezo. O ódio não se limita a inimigos declarados; pode surgir nos relacionamentos mais próximos—família, amigos e até mesmo parceiros que nos traem. A traição daqueles em quem mais confiamos frequentemente gera o ódio mais intenso. Muitas figuras bíblicas passaram por essa dor: José foi odiado e vendido pelos próprios irmãos, Davi foi perseguido por Saul, que um dia o amou, e Jesus foi traído por Judas, um dos seus próprios discípulos. A realidade é que aqueles que nos odeiam podem não ser estranhos, mas pessoas próximas que, por inveja, mágoa ou mal-entendidos, se tornam inimigos.
A Sagrada Escritura trata extensivamente do conceito de inimigos. No Antigo Testamento, a palavra hebraica אוֹיֵב (oyev) é a mais comum para “inimigo”, frequentemente referindo-se a opositores nacionais ou pessoais. Outra palavra, צָר (tzar), significa “adversário” ou “opressor”, destacando a dor causada por um inimigo. No Novo Testamento, a palavra grega ἐχθρός (echthros) é usada tanto para inimigos humanos quanto para oposição espiritual. A Bíblia ensina que a inimizade vai além das relações humanas; sua raiz está na luta entre Deus e o pecado. Em 1 Pedro 5,8, Satanás é chamado de “o adversário” (ἀντίδικος – antidikos), que anda ao redor buscando a quem devorar. Todo conflito, traição e ódio têm sua origem nessa batalha maior. Aqueles que nos odeiam não estão agindo apenas por maldade pessoal; estão, consciente ou inconscientemente, influenciados por forças maiores. Isso explica por que devemos orar por eles, amá-los e ajudá-los a se libertar dessas forças espirituais. Escolher a misericórdia em vez da vingança é impossível apenas pela força humana, mas pela graça de Deus se torna um ato sobrenatural que quebra o ciclo do ódio e transforma tanto a vítima quanto o ofensor.
A Primeira Leitura (1 Samuel 26,2.7-9.12-13.22-23) nos dá um poderoso exemplo do que significa escolher a misericórdia em vez da vingança. O rei Saul, que outrora foi um mentor e figura paterna para Davi, tornou-se seu perseguidor por inveja e insegurança. Saul tentou matar Davi, mas quando Davi teve a oportunidade perfeita para tirar a vida de Saul, ele recusou. Em vez de retribuir o mal com o mal, Davi confiou na justiça divina. Ele reconheceu que Saul, apesar de suas ações, ainda era ungido pelo Senhor e que a vingança não lhe pertencia. Esse momento prenuncia o amor radical e o perdão que Jesus ensinaria mais tarde. O conceito hebraico de justiça divina (צדקה – tzedakah) é fundamental aqui—Davi compreendeu que a verdadeira justiça não consiste em se vingar, mas em confiar no julgamento de Deus.
Essa mesma mensagem ressoa no Salmo Responsorial (Salmo 103,1-4.8.10.12-13), que descreve Deus como “misericordioso e compassivo, lento para a ira e rico em amor”. O salmista proclama que Deus não nos trata conforme nossos pecados, mas remove nossas transgressões como o Oriente está distante do Ocidente. O termo hebraico חֶסֶד (hesed), que significa “amor fiel” ou “misericórdia da aliança”, revela que o amor de Deus não depende de nosso merecimento, mas é dado gratuitamente. Esse é o mesmo amor que devemos estender aos nossos inimigos.
Jesus eleva esse chamado à misericórdia no Evangelho (Lucas 6,27-38). Em Seu Sermão da Planície, Ele apresenta um dos ensinamentos mais desafiadores: “Amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam, bendizei os que vos amaldiçoam, orai pelos que vos maltratam.” A palavra grega ἀγαπάω (agapaō), usada para “amar” aqui, não significa ter sentimentos positivos, mas uma decisão de agir pelo bem do outro, mesmo quando não merecido.
A expressão “dar a outra face” (τὴν ἄλλην παρειὰν – tēn allēn pareian) não significa aceitar abusos passivamente, mas sim romper o ciclo da violência. No contexto judaico e romano, ser golpeado na face direita geralmente significava receber um tapa com as costas da mão, um gesto de humilhação e superioridade. Ao oferecer a outra face, a vítima não revida, mas também não se submete à humilhação—ela força o agressor a tratá-la como igual. Esse é um ato de resistência não violenta, que denuncia a injustiça sem perpetuar o ódio.
Esse ensinamento não trata apenas de relações interpessoais, mas de uma transformação espiritual e social. No mundo, a vingança é esperada, mas Jesus desafia essa mentalidade, ordenando algo inimaginável: “Bendizei os que vos amaldiçoam.” O verbo grego εὐλογέω (eulogeō), que significa “abençoar” ou “falar bem de”, nos chama a responder ao ódio com bondade ativa. Isso desafia nossa natureza humana, mas se alinha com a própria essência de Deus: “Sede misericordiosos, como vosso Pai é misericordioso” (Lc 6,36).
Essa lição se conecta à Segunda Leitura (1 Coríntios 15,45-49), onde Paulo contrasta o primeiro Adão (carnal e corruptível) com o segundo Adão (Cristo, o espírito vivificante). O primeiro Adão foi moldado pelos desejos terrenos, incluindo a vingança, mas o último Adão, Jesus, traz vida pelo Espírito. Assim como nascemos segundo Adão, agora somos chamados a viver conforme Cristo. Seu caminho não é natural para a carne, mas sobrenatural, exigindo um coração transformado pela graça.
Queridos irmãos e irmãs, orar por nossos inimigos e fazer-lhes o bem não se trata apenas de mudar a eles, mas de libertá-los do verdadeiro inimigo: Satanás. Cada rancor que alimentamos, cada vingança que buscamos, e cada ódio que guardamos dá espaço ao diabo. Quando perdoamos, não estamos justificando o pecado, mas removendo seu poder sobre nós. Quando oramos por nossos inimigos, não estamos dizendo que suas ações foram certas, mas os estamos chamando à luz de Cristo. O perdão parece impossível porque realmente é—sem Deus. Mas quando reconhecemos que o verdadeiro inimigo não são as pessoas, mas o pecado, aprendemos que a verdadeira liberdade está em abandonar o peso do ódio e entregá-lo a Cristo.
“Oxalá ouvísseis hoje a sua VOZ: não endureçais os vossos corações!” (Sl 95,7)
Shalom!
© Pe. Chinaka Justin Mbaeri, OSJ
Seminário Padre Pedro Magnone, São Paulo, Brasil.
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