QUANDO A RELIGIÃO SE TORNA UMA COMPETIÇÃO
Primeira Leitura: Eclesiástico 4,12-22
Salmo Responsorial: Sl 118(119):165,168,171-172,174-175
Evangelho: Marcos 9,38-40
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A religião, por sua própria natureza, deveria ser um caminho para Deus, um meio de refinamento e uma forma de cultivar a virtude, o amor e a justiça. No entanto, a história mostra que a religião muitas vezes se torna algo completamente diferente – uma competição. Em vez de se concentrarem na fé, na humildade e no serviço, muitos indivíduos e grupos religiosos transformam sua jornada espiritual em uma corrida por poder, reconhecimento e controle. Igrejas e líderes religiosos competem por influência, denominações desqualificam umas às outras, e muitos crentes preocupam-se mais em provar sua superioridade do que em aprofundar seu relacionamento com Deus. Isso não é apenas um problema moderno. Ao longo da história, comunidades religiosas frequentemente lutaram com um sentimento de exclusividade, acreditando que a verdade e o favor divino pertencem apenas a elas. O momento em que a religião deixa de ser um chamado ao crescimento na virtude e se torna uma disputa por status, ela perde sua essência. Em vez de aproximar as pessoas de Deus, ela se torna um campo de batalha para rivalidades, orgulho e divisão.
Esse problema é exatamente o que a Primeira Leitura (Eclesiástico 4,12-22) aborda por meio da personificação da Sabedoria. No Eclesiástico, a Sabedoria é retratada tanto como guia quanto provadora, conduzindo as pessoas por um processo de refinamento antes de lhes revelar plenamente suas bênçãos. No entanto, a lição central é que a Sabedoria não concede verdadeiro conhecimento àqueles que a buscam por autopromoção ou status pessoal. Em vez disso, ela disciplina aqueles que se aproximam dela, garantindo que suas intenções sejam purificadas. O conceito hebraico “מוּסָר” (Mūsar), que significa “disciplina, instrução ou correção,” está profundamente enraizado nessa passagem. A Sabedoria disciplina aqueles que a desejam, testando-os para expor suas verdadeiras motivações. Aqueles que são sinceros suportam essa formação e são recompensados, mas aqueles que buscam a sabedoria para autopromoção falham no teste e acabam por ruir. Isso reflete uma verdade espiritual profunda – muitas pessoas afirmam buscar Deus, mas, na realidade, buscam validação religiosa, influência ou superioridade sobre os outros. O Eclesiástico adverte que a sabedoria não é para aqueles que desejam dominar os outros, mas para aqueles que estão dispostos a serem corrigidos e transformados por ela.
Esse tema se conecta diretamente ao Salmo Responsorial (Salmo 118,165.168.171-172.174-175), que enfatiza a confiança em Deus ao invés da dependência do poder humano. O Salmo declara: “Aqueles que amam a tua lei desfrutam de muita paz, e para eles não há tropeço.” A palavra hebraica “בָּטַח” (Batach), que significa “confiar, apoiar-se em”, é essencial aqui. Em vez de buscar segurança no status religioso, na influência humana ou no reconhecimento externo, o Salmo chama os crentes a colocar sua confiança na justiça de Deus. Aqueles que verdadeiramente confiam no Senhor não sentem necessidade de competir por reconhecimento ou superioridade espiritual, pois sabem que Deus sustenta os justos. Isso contrasta fortemente com a rivalidade religiosa, onde os indivíduos se esforçam para provar seu valor em vez de descansarem na aprovação de Deus.
O Evangelho (Marcos 9,38-40) apresenta um caso prático de competição religiosa em ação. João, um dos discípulos mais próximos de Jesus, traz a Ele uma preocupação: “Mestre, vimos um homem expulsando demônios em teu nome e tentamos impedi-lo, porque ele não nos seguia.” A reação de João é um exemplo clássico de exclusividade na religião – ele presume que apenas aqueles dentro de seu grupo imediato têm o direito de exercer autoridade divina. Sua preocupação não era que o homem estivesse fazendo algo errado, mas que ele estivesse fazendo algo certo fora de seu grupo oficial. Jesus imediatamente corrige essa mentalidade, dizendo: “Não o impeçam… Pois quem não é contra nós está a nosso favor.” Essa resposta é chocante porque contradiz diretamente a crença dos discípulos de que a autoridade espiritual é limitada a um seleto grupo. O termo grego “ζηλός” (Zēlos), que significa “zelo, rivalidade ou ciúme,” está implícito na reação deles. Os discípulos não estavam preocupados com a verdade, mas com a manutenção do controle exclusivo sobre as obras divinas. Esse é exatamente o mesmo problema que o Eclesiástico denuncia – pessoas buscando sabedoria ou poder divino não para a glória de Deus, mas para sua própria autoafirmação.
A passagem do Evangelho serve como uma correção ao espírito de exclusividade religiosa. Jesus deixa claro que Deus não está limitado pelas instituições humanas, nem Seu trabalho está restrito a um grupo religioso específico. O homem que expulsava demônios pode não ter sido um dos Doze, mas ainda agiu em nome de Jesus, o que significa que Deus estava operando através dele. O orgulho religioso cegou os discípulos para reconhecer a ação de Deus em lugares inesperados, assim como cega muitos hoje, que assumem que a fé e a ação divina pertencem exclusivamente à sua igreja, denominação ou liderança.
Essa lição é tão relevante hoje quanto naquela época. Muitos grupos religiosos ainda tratam a fé como uma disputa por influência, onde o sucesso é medido por números, poder e reconhecimento. Isso se reflete em igrejas que focam mais no crescimento de membros do que na formação espiritual genuína. Manifesta-se em denominações que desqualificam umas às outras, em vez de reconhecerem a obra de Deus em diferentes tradições. Está presente em líderes que veem suas posições como plataformas de poder pessoal, em vez de chamados ao serviço humilde. Esse espírito competitivo é perigoso porque desloca o foco da missão de Deus para a ambição humana. Assim como os discípulos falharam em reconhecer que Deus estava agindo fora de seu grupo imediato, muitos hoje não percebem que Deus não está confinado a uma tradição, movimento ou líder específico. A principal lição aqui é que a verdadeira fé não se trata de controlar o acesso a Deus, mas de reconhecer Sua presença onde quer que Ele escolha manifestá-la.
As aplicações práticas dessas leituras são claras. Primeiro, a fé nunca deve se tornar uma disputa por status ou influência. Aqueles que gastam energia tentando provar-se superiores aos outros em assuntos religiosos perdem o verdadeiro propósito do discipulado. Segundo, devemos estar abertos a reconhecer a obra de Deus além do nosso círculo imediato. Em vez de reagirmos com inveja ou suspeita quando outros produzem frutos na fé, devemos nos alegrar porque o nome de Deus está sendo glorificado. Terceiro, devemos examinar nossas próprias motivações: estamos buscando sabedoria e fé para uma transformação genuína, ou estamos usando a religião como um meio de autoafirmação? Muitos praticam atividades religiosas não porque querem crescer em santidade, mas porque querem ser vistos como mais espirituais que os outros. Isso é orgulho espiritual, e tanto o Eclesiástico quanto Jesus advertem contra isso.
Queridos irmãos em Cristo, a religião se torna uma competição quando as pessoas confundem autoridade divina com controle pessoal. Os discípulos lutaram com isso, e muitos ainda lutam hoje. Mas a verdade permanece – o poder de Deus não pode ser monopolizado. A fé não se trata de provar quem está certo ou quem tem mais influência; trata-se de confiança, humildade e entrega à missão maior de Deus. Quando deixarmos de ver a religião como uma batalha por domínio e começarmos a abraçá-la como uma jornada compartilhada em busca da verdade, finalmente entenderemos o que significa realmente servir a Deus.
“Oxalá ouvísseis hoje a sua VOZ: não endureçais os vossos corações!” (Sl 95,7)
Shalom!
© Pe. Chinaka Justin Mbaeri, OSJ
Seminário Padre Pedro Magnone, São Paulo, Brasil.
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