“Jesus Conhece Meu Coração” Não é uma Desculpa para a Desobediência
Primeira Leitura: Deuteronômio 4,1.5-9
Salmo Responsorial: Sl 147,12-13.15-16.19-20
Evangelho: Mateus 5,17-19
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Muitas pessoas hoje justificam suas ações, especialmente quando vão contra os mandamentos de Deus, dizendo: “Jesus conhece meu coração.” Essa frase é frequentemente usada como uma defesa quando confrontadas sobre falhas morais, como se a sinceridade do coração fosse suficiente para desculpar a desobediência. Alguém que falta à Missa pode afirmar: “Deus entende minhas dificuldades.” Alguém que vive contrariamente aos ensinamentos bíblicos pode dizer: “Jesus sabe que eu tenho um bom coração.” Embora seja verdade que Deus vê e entende nossas lutas, isso não significa que Ele desculpa a desobediência. Se apenas ter um “bom coração” fosse suficiente, não haveria necessidade da lei divina, dos ensinamentos da Igreja ou do chamado ao arrependimento. A Escritura é clara: a obediência é necessária para a santidade. Essa é precisamente a mensagem encontrada nas leituras de hoje.
A primeira leitura, de Deuteronômio 4,1.5-9, apresenta Moisés dirigindo-se a Israel antes de entrarem na Terra Prometida, exortando-os a observar fielmente os mandamentos de Deus. O Sitz im Leben (contexto histórico e social) desta passagem é a transição de Israel do período de peregrinação no deserto para a formação de uma nação sob a lei divina. Moisés lembra ao povo que sua sobrevivência e sabedoria dependem da obediência aos preceitos divinos. O termo hebraico usado para “observar” nesta passagem, shamar (שָׁמַר), significa “guardar, preservar, vigiar diligentemente” — implicando não apenas aceitação passiva, mas uma adesão ativa e cuidadosa à vontade de Deus. Esse conceito vai contra a tendência moderna de assumir que “intenções” importam mais do que ações. Moisés insiste que o povo não deve apenas acreditar na bondade de Deus, mas também viver de acordo com Seus mandamentos.
O salmo responsorial (Salmo 147) dá continuidade a esse tema, enfatizando que a Palavra de Deus não é algo apenas para ser reconhecido, mas para ser seguido. O salmista louva os decretos do Senhor como fonte de vida, não meras sugestões opcionais, mas diretrizes que trazem bênçãos e sabedoria. Isso contradiz a mentalidade contemporânea de enxergar os mandamentos de Deus como regras pesadas, quando na verdade são caminhos para a verdadeira liberdade. Assim como a fidelidade de Israel levou à sua prosperidade, nossa obediência à lei de Deus traz vida espiritual, ao invés de mera autocomplacência.
A leitura do Evangelho (Mateus 5,17-19) é onde Jesus esclarece que Ele não veio para abolir a Lei, mas para cumpri-la. O Sitz im Leben aqui é Jesus falando dentro do contexto judaico da observância da Torá, dirigindo-se àqueles que pensavam que Ele poderia estar anulando os mandamentos antigos. Em vez disso, Ele os intensifica, afirmando que até o menor mandamento importa. O termo grego que fundamenta esse ensinamento é plēroō (πληρόω), que significa “levar à plena medida, completar perfeitamente.” Jesus não rejeita a obediência em favor de uma espiritualidade vaga e sentimental, mas exige uma adesão plena à lei moral de Deus, tanto externamente quanto internamente. Dizer “Jesus conhece meu coração” sem viver de acordo com Seus mandamentos é uma contradição. Um “bom coração” que desobedece deliberadamente à lei de Deus não é realmente bom. Jesus deixa claro que aqueles que obedecem e ensinam Seus mandamentos serão grandes no Reino dos Céus, enquanto aqueles que os ignoram serão os menores. Isso destrói a falsa noção de que o amor de Deus elimina a necessidade da responsabilidade moral.
Na prática, essa mensagem nos chama à autoavaliação. Se Jesus realmente conhece nosso coração, Ele também sabe quando usamos desculpas em vez de nos esforçarmos para melhorar. O amor por Deus não é provado apenas por sentimentos ou boas intenções, mas por ação, obediência e perseverança na fé. Isso deve nos desafiar: justificamos o pecado, assumindo que Deus “entende”, ou nos esforçamos ativamente para a retidão? Além disso, essa passagem nos exorta a levar a sério o papel de ensinar a fé. Moisés instruiu Israel a ensinar a Lei a seus filhos e às gerações futuras, implicando que a fé não é individualista, mas comunitária. Com que frequência evitamos ensinar verdades morais difíceis porque elas são impopulares? Finalmente, as palavras de Jesus nos chamam à humildade e ao arrependimento. A resposta apropriada para “Jesus conhece meu coração” não deve ser uma desculpa para o pecado, mas uma oração: “Senhor, purifica meu coração e ajuda-me a seguir-Te fielmente.” Fé sem obediência é presunção; obediência sem fé é legalismo — mas o verdadeiro discipulado requer ambos.
Oxalá ouvísseis hoje a sua VOZ: não fecheis os vossos corações! (Sl 95,7)
Shalom!
© Pe. Chinaka Justin Mbaeri, OSJ
Seminário Padre Pedro Magnone, São Paulo, Brasil.
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