Quando Entra por um Ouvido e Sai pelo Outro
Primeira Leitura: Jeremias 7,23-28
Salmo Responsorial: Sl 94(95),1-2.6-9
Evangelho: Lucas 11,14-23
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Provavelmente todos nós já usamos ou ouvimos a expressão: “Entra por um ouvido e sai pelo outro.” É o que se diz quando alguém ouve conselhos, instruções ou até advertências, mas não os absorve — muito menos os coloca em prática. Os pais a usam em relação aos filhos — quando a criança é repetidamente orientada, mas continua a agir de forma errada; quando o professor explica o mesmo conceito várias vezes, e os alunos continuam sem compreender; ou quando o sacerdote prega com paixão, e a assembleia esquece tudo antes mesmo de sair da igreja. Na vida cotidiana, essa frase capta um comportamento humano frustrante e comum: ouvir sem escutar, saber sem praticar, acenar com a cabeça enquanto o coração permanece indiferente. Não se trata apenas de esquecimento, mas de uma recusa deliberada em se envolver. E é aí que a coisa se torna espiritualmente perigosa. Reflete um tipo de fechamento interior que mantém a verdade do lado de fora — não por ignorância, mas por escolha. Em termos bíblicos, é mais do que desatenção; é resistência às instruções divinas — desobediência.
Esse mesmo problema está no centro da Primeira Leitura (Jeremias 7,23–28). Deus diz: “Esta é a nação que não escutou a voz do Senhor, seu Deus, e não aceitou correção.” O Sitz im Leben (contexto vital) desta passagem é a confiança mal colocada de Judá no Templo como garantia do favor divino, ao passo que suas obrigações morais e de aliança eram negligenciadas. O povo ia ao Templo, rezava, oferecia sacrifícios, mas seus ouvidos estavam fechados — e o coração, ainda mais. O verbo hebraico usado para “escutar” é shāmaʿ, que implica mais do que apenas ouvir sons — envolve uma escuta atenta que leva à obediência. O povo ouvia os profetas, incluindo o próprio Jeremias, mas tratava suas palavras como ruído de fundo — deixando a mensagem entrar por um ouvido e sair pelo outro. A expressão “endureceram a cerviz” (hebraico: hiqshû ʿorpām) reflete essa imagem: não eram apenas desatentos, mas teimosos, resistentes à própria voz que os formara como povo. Essa condição espiritual tornava seu culto vazio, seus ritos religiosos destituídos de significado. O que entrava por um ouvido, saía pelo outro — não porque a mensagem fosse obscura, mas porque a vontade se recusava a agir.
O Salmo responsorial (Sl 94/95) retoma essa denúncia com um alerta: “Oxalá ouvísseis hoje a sua voz: não fecheis os vossos corações.” O Salmo recorda a rebelião em Meribá e Massá, quando Israel pôs Deus à prova, apesar dos sinais e da providência já recebidos. Eles escutaram com os ouvidos, mas murmuraram no coração. O Salmo coloca o ouvinte no presente: “hoje” — um convite permanente à obediência. O fracasso não está na compreensão, mas na resposta.
Isso prepara o terreno para o Evangelho (Lucas 11,14–23), no qual Jesus expulsa um demônio mudo e, em vez de suscitar fé, recebe suspeitas e acusações. O Sitz im Leben aqui é o conflito crescente de Jesus com a elite religiosa que, apesar de testemunhar o poder divino, escolhe atribuí-lo a Belzebu. O equivalente grego do tema aparece em “akroatēs epilēsmonēs” (cf. Tg 1,23–24) — um “ouvinte que se esquece”. Mas aqui é ainda mais grave — eles ouvem e rejeitam. O verbo grego sklērynō (“endurecer”) usado em contextos semelhantes (cf. At 7,51) mostra que o problema não estava nos ouvidos, mas no coração. Eles viram, ouviram e ainda assim recusaram. Assim como nos tempos de Jeremias, trataram a verdade como ruído: entra por um ouvido e sai pelo outro. O resultado não é neutralidade, como Jesus adverte: “Quem não está comigo é contra mim.”
Na prática, esta é uma doença espiritual que vemos diariamente: pessoas que frequentam a Missa, ouvem a Palavra, confessam seus pecados — e continuam as mesmas. Isso revela como muitos podem estar cercados de graça — sermões, sacramentos, sinais — e ainda assim permanecerem não convertidos. Nos desculpamos com frases como “Depois eu penso nisso”, “Essa homilia foi bonita” ou “Eu já conheço essa história” — mas tudo isso são sinais de que a Palavra está escorrendo. A lição principal é clara: a surdez espiritual nem sempre é falha na audição; é o hábito de ouvir a voz de Deus sem permitir que ela nos incomode. Quando a verdade é ouvida, mas não vivida, ela perde o impacto. Deus não fala apenas para informar — Ele fala para transformar. Este confronto evangélico desafia cada ouvinte: sou apenas um ouvinte passivo ou um discípulo obediente? Quando a Palavra entra pelos meus ouvidos, ela move meu coração ou apenas rebate na minha indiferença? A voz de Deus fala por meio da consciência, das Escrituras, da Tradição e do Magistério. Mas, se reduzirmos isso a ruído de fundo, cairemos no mesmo padrão condenado por Jeremias, advertido nos Salmos e desmascarado por Cristo. A lição é clara: Deus não quer apenas que sua Palavra seja ouvida — Ele quer que ela seja vivida. Deixar que entre por um ouvido e saia pelo outro não é apenas tolice — é espiritualmente fatal.
Oxalá ouvísseis hoje a sua VOZ: não fecheis os vossos corações! (Sl 95,7)
Shalom!
© Pe. Chinaka Justin Mbaeri, OSJ
Seminário Padre Pedro Magnone, São Paulo, Brasil.
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