Esperando nas Águas Erradas
Primeira Leitura: Ezequiel 47,1-9.12
Salmo Responsorial: Sl 45(46),2-3.5-6.8-9ab
Evangelho: João 5,1-3.5-16
________________________________________
Há algo de familiar na maneira como as pessoas esperam. Uma mulher espera anos por um pedido de casamento de alguém que não está pronto. Uma pessoa espera por um cargo público que nunca chega. Um jovem se dedica a novenas, vigílias, cruzadas etc., mas ainda luta com um vício que se recusa a cessar. As pessoas esperam fielmente, desesperadamente, às vezes até com amargura. Mas a questão mais profunda não é apenas o fato de estarem esperando. É que, muitas vezes, estão esperando nas águas erradas. O lugar em que depositaram suas esperanças há muito perdeu seu poder. A Quaresma, especialmente nesta quarta semana marcada pela alegria do Laetare, chama a atenção para a necessidade de reconhecer onde se está esperando e se o objeto dessa esperança ainda dá vida. As leituras deste dia, quando lidas juntas, trazem esse desafio à luz. Elas nos convidam a alegrar-nos não apenas porque a cura chegou, mas porque a verdadeira fonte da alegria chegou, e não estamos mais obrigados a esperar junto a águas estagnadas.
A Primeira Leitura de Ezequiel (47,1-9.12) fala de uma visão de águas vivas que fluem do templo. O contexto histórico dessa passagem é crucial: ela emerge do período do exílio, quando o Templo havia sido destruído e a identidade espiritual e nacional de Israel estava abalada. Deus oferece a Ezequiel não apenas uma mensagem de retorno, mas uma visão de esperança futura. A água flui de sob a soleira do templo, e esse fio d’água gradualmente se transforma em um rio profundo o suficiente para se nadar. A água transforma tudo em seu caminho, até o Mar Morto se torna doce. O que é pertinente aqui é a direção do fluxo. A água não permanece trancada dentro do templo. Ela flui para fora, tocando o que não tinha vida. A palavra hebraica mayim (água) nesta visão profética não é apenas física, mas simbólica da graça divina, renovação e alegria. Isso subverte o pensamento convencional. Esperar-se-ia que, quanto mais próximo do templo, mais vida se encontraria. Mas nesta visão, quanto mais a água flui para fora, mais vida ela traz. Esta é uma mensagem profética para aqueles que depositaram toda sua confiança em estruturas religiosas sem reconhecer o movimento do Espírito de Deus. Às vezes, a alegria não está onde sempre esperamos. Às vezes, a água curativa flui em direções que desafiam nossos apegos.
O Salmo 46, que serve como salmo responsorial, reflete esse mesmo movimento da presença e alegria divinas. “Os braços de um rio alegram a cidade de Deus, o lugar santo onde habita o Altíssimo.” Isso é um eco direto da visão de Ezequiel. Curiosamente, o Salmo 46 pode ter sido composto num tempo de ameaça nacional, possivelmente durante o cerco assírio a Jerusalém. No entanto, em meio à destruição iminente, o salmista proclama alegria, não por causa da paz externa, mas porque Deus está presente. Não são os muros da cidade nem os rituais que garantem sua segurança; é o rio, a graça invisível, que alegra a cidade. É isso que torna o salmo confrontador: ele nos convida a alegrar-nos não por onde estamos, mas por quem está conosco. O verdadeiro perigo hoje é quando as pessoas colocam sua segurança em ambientes, títulos ou instituições que parecem sagrados, mas estão desprovidos de água viva. As pessoas esperam em igrejas, esperam sob óleos ungidos, esperam por bênçãos de certas personalidades, mas o rio da graça não está atado a esses lugares a menos que Deus esteja agindo por meio deles. Este salmo nos obriga a examinar se estamos extraindo alegria da presença real de Deus ou apenas da geografia religiosa.
A leitura do Evangelho de João 5,1–16 traz a controvérsia deste tema em foco nítido. Jesus encontra um homem que estava doente havia trinta e oito anos. O homem estava marcado por decepções prolongadas. Ele jaz junto ao tanque de Betesda, esperando ser curado pelas águas que se acreditava moverem-se com poder angélico. Mas aqui está a ironia: mesmo quando Jesus está diante dele, o homem ainda está fixado no tanque. “Não tenho ninguém que me coloque na água”, diz ele. É uma imagem trágica de alguém tão condicionado pela rotina religiosa que não consegue reconhecer a chegada da verdadeira cura. O termo grego usado quando Jesus diz “Levanta-te” é egeire, a mesma palavra usada em contextos de ressurreição. O milagre não depende da água, está na Palavra que lhe fala. O nome “Siloé”, como explicado em João 9, significa “Enviado”, e Jesus é o cumprimento desta imagem porque Ele é o Enviado pelo Pai, como o Evangelho de João apresenta. Ele é a água que alegra a cidade de Deus. Ele é o novo Templo de onde flui o rio da cura. Continuar esperando junto ao tanque estagnado enquanto se ignora Cristo é perder totalmente o sentido. É desnecessário dizer que Jesus é o Enviado pelo Pai para trazer cura não por meio de um lugar, mas por meio de um encontro pessoal. O homem em Betesda esperava junto à água errada, e quando finalmente ouviu a Palavra, sua vida mudou. Assim, Betesda (casa de misericórdia), outrora lugar de esperança, tornou-se um lugar de paralisia religiosa. Jesus confronta isso, e a cura do homem expõe a falência do sistema.
A primeira lição é dolorosamente clara: é possível passar anos em ambientes religiosos e ainda permanecer espiritualmente estagnado. Isso acontece quando idolatramos a estrutura e perdemos de vista o Salvador. O homem tinha boa teologia e boas intenções, mas sua atenção estava fixada no mecanismo, não no Messias. Hoje, muitos cristãos ainda estão sentados ao lado de piscinas que não curam mais; ou seja, sacramentais sem sacramentos, água benta sem conversão, mãos ungidas sem arrependimento. O chamado é para levantar-se e reconhecer Cristo que se aproximou. Esperar não é o problema. Onde esperamos, e por que esperamos, é.
Em segundo lugar, a história desafia o hábito de terceirizar a responsabilidade pela nossa cura. “Não tenho ninguém que me coloque,” diz o homem. É assim que muitos abordam suas vidas espirituais – culpando pastores, amigos, família ou a sociedade por não estarem melhores. Mas quando Cristo está presente, as desculpas não se sustentam mais. O comando é claro: “Pega tua maca e anda.” A alegria não vem da lamentação prolongada. Ela vem da obediência à voz de Cristo. O homem não precisava de um tanque; ele precisava de um encontro pessoal. Da mesma forma, nossa cura muitas vezes começa quando paramos de culpar os outros e começamos a responder ao convite de Cristo para levantar-nos.
Em terceiro lugar, a mensagem desafia a Igreja e seus ministros. Betesda era um lugar cercado por pessoas que precisavam de cura, mas não havia ninguém para ajudá-las a entrar na água. O homem curado disse: “Não tenho ninguém.” Isso é uma acusação séria. Quantas pessoas hoje se sentem abandonadas, deitadas à beira da ajuda sem ninguém para conduzi-las à presença de Deus? A Igreja deve constantemente se perguntar se está conduzindo as pessoas à água viva ou apenas mantendo a aparência de cura. Estamos proclamando o Enviado, ou convidando as pessoas a esperar em piscinas que não se agitam mais? Cristo nos chama a ser canais de Sua presença curativa, não apenas guardiões de lugares sagrados. Assim, este tema convida a Igreja e seus ministros a reavaliarem os espaços que rotulamos como sagrados. São realmente lugares onde o rio da graça flui? Ou tornaram-se salas de espera sem movimento? Isso é especialmente importante na teologia sacramental. Se os sacramentos são verdadeiros encontros com Cristo, então eles devem levar à conversão real e à alegria. Caso contrário, correm o risco de se tornarem como o tanque de Betesda, uma tradição cercada de gente, mas marcada pela impotência. A alegria do Laetare não é a alegria de estar perto das águas. É a alegria de ser tocado por Aquele que foi enviado. É hora de parar de esperar nas águas erradas e começar a caminhar com o Enviado.
Esperar não é errado, mas esperar no lugar errado pode nos fazer perder exatamente aquilo que mais desejamos. A água está fluindo novamente do Templo, não em estruturas antigas, mas no rosto d’Aquele que foi Enviado. A alegria começa não quando o sistema funciona, mas quando a voz de Cristo é ouvida e obedecida. “Levanta-te, pega tua maca e anda.” Agora é a hora de parar de esperar nas águas erradas.
Oxalá ouvísseis hoje a sua VOZ: não fecheis os vossos corações! (Sl 95,7)
Shalom!
© Pe. Chinaka Justin Mbaeri, OSJ
Seminário Padre Pedro Magnone, São Paulo, Brasil.
📧 nozickcjoe@gmail.com / fadacjay@gmail.com
Você já rezou o seu terço hoje?