A Alegria de Ser Lembrado por Deus
Primeira Leitura: Êxodo 32,7-14
Salmo Responsorial: Sl 105(106),19-23
Evangelho: João 5,31-47
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Há poucas experiências na vida tão comoventes como ser lembrado por alguém que pensávamos ter se esquecido de nós. Um telefonema de um velho amigo, um presente inesperado de um parente ou até mesmo um desconhecido nos reconhecendo em meio à multidão pode despertar um profundo senso de valor. Em contraste, um dos sentimentos humanos mais dolorosos é a sensação de ser esquecido, negligenciado ou abandonado. Seja o pai idoso deixado num asilo, o paroquiano aflito que se sente ignorado na Igreja, um aniversário esquecido, ou o jovem lutando com sua identidade e orações não ouvidas… Em todas essas situações, o clamor do coração humano permanece: “Deus se esqueceu de mim?” É justamente nesse contexto emocional e espiritual que o tema de ser lembrado por Deus encontra seu lugar. Nesta semana de Laetare, quando a Igreja nos convida a alegrar-nos na antecipação da nova vida da Páscoa, da restauração e renovação, esse tema ressoa com um novo significado. As leituras de hoje nos apresentam um Deus que se lembra, um povo que esquece e uma alegria que brota não do mérito, mas da fidelidade divina.
A Primeira Leitura do livro do Êxodo (32,7–14) emerge de um momento turbulento na história da salvação de Israel. Os israelitas, recém-libertos do Egito, tornam-se impacientes com a ausência de Moisés. Exigem um deus visível e moldam o bezerro de ouro, afastando-se do próprio Deus que os havia libertado da escravidão. O Sitz im Leben dessa narrativa reflete a crise de apostasia e o vácuo de liderança que a travessia do deserto frequentemente provocava. A reação divina é intensa: “Deixa-me, para que minha ira se acenda contra eles.” No entanto, o que se segue é extraordinário. Moisés, agindo não apenas como líder, mas como intercessor, apela à memória de Deus. Ele invoca as promessas feitas a Abraão, Isaac e Israel. O verbo hebraico זָכַר (zākar), que significa “lembrar,” embora não apareça explicitamente na passagem, sustenta o apelo de Moisés: ele está exortando Deus a recordar Sua lealdade à aliança. Esse apelo à memória não é uma tentativa de mudar a natureza de Deus, mas de invocar Seu caráter misericordioso, enraizado na fidelidade. A restauração que se segue não é merecida pelo povo, mas flui do ato divino de lembrar. Neste momento, a alegria de Laetare encontra sua base no Antigo Testamento: a memória de Deus triunfa sobre o esquecimento humano.
O salmo responsorial, o Salmo 106, continua essa linha de reflexão com uma recordação penitencial da falha de Israel no Horeb. “Esqueceram-se do Deus que os salvara,” lamenta o salmista, refletindo uma tendência humana trágica de deixar as maravilhas divinas cair no esquecimento. O povo trocou a glória de Deus pela imagem de um bezerro comedor de capim. No entanto, o refrão intervém com uma súplica esperançosa: “Lembrai-vos de nós, Senhor, segundo o amor para com vosso povo.” O clamor é por restauração, não baseada na justiça presente, mas na misericórdia constante de Deus. Aqui, o verbo zākar aparece explicitamente, expressando o anseio do povo de ser notado novamente, de ser mantido mais uma vez sob o olhar amoroso do Senhor. A alegria presente nesse salmo não é estrondosa nem triunfante, mas silenciosa, como a alegria de uma criança esquecida cujo nome é, de repente, pronunciado. Fala a todo coração que se sentiu espiritualmente órfão, a toda alma que conheceu a culpa de ter esquecido Deus, mas ousa esperar que Deus ainda se lembre.
Na leitura do Evangelho, João 5,31–47, a ideia de ser lembrado é aprofundada através de uma lente cristológica. O Sitz im Leben dessa passagem é a crescente oposição a Jesus em Jerusalém após a cura no tanque de Betesda, onde Jesus curou um homem no sábado. Esse ato provocou a ira das autoridades religiosas, levando Jesus a falar extensamente sobre Sua relação com o Pai e o testemunho que valida Sua missão. Ele desafia a fonte da alegria e da identidade deles. Confiam em Moisés e na Lei, mas recusam-se a aceitar aquele a quem Moisés testemunhava. Ele diz: “Eu não aceito testemunho humano, mas digo isso para que sejais salvos.” O verbo grego frequentemente traduzido como “lembrar” no Novo Testamento é mimnēskomai, embora não apareça diretamente nesta passagem. Contudo, o conceito está implícito na referência de Jesus à Escritura e a Moisés: os líderes afirmam “lembrar” e venerar Moisés, mas ignoram aquele a quem ele apontava. A memória deles é seletiva e estéreo. Lembram palavras, mas não o sentido; tradição, mas não cumprimento. Jesus, como Moisés, coloca-Se na brecha, não implorando por um povo pecador, mas oferecendo-Se como o cumprimento de toda a memória. Ele é a aliança viva, o Verbo divino encarnado, que restaura todos os que a Ele se dirigem. É à luz disso que podemos conectar a ideia de Siloé, o tanque mencionado no Evangelho de João, cujo nome significa “Enviado.” Jesus é aquele enviado pelo Pai para restaurar a vista, curar as feridas e renovar o que estava perdido. Ser lembrado por Deus, em Jesus, significa ser tirado da cegueira e trazido à nova luz. É a alegria de não mais ser esquecido, de ser curado na visibilidade.
Dessas leituras, emergem várias lições. Primeiro, há o chamado à conversão pessoal. Muitos hoje vivem com a ilusão de que Deus os esqueceu por causa de seus pecados passados, fracassos repetidos ou tibieza espiritual. Mas esses textos nos lembram que a memória de Deus não é como a nossa. O lembrar de Deus não é simplesmente uma recordação cognitiva, mas uma fidelidade ativa. Ser lembrado por Deus é ser amado, procurado, perdoado e restaurado. Isso deve encher o coração cristão de alegria, não de orgulho. É a alegria de saber que, mesmo quando esquecemos Deus, Ele não nos esquece.
Em segundo lugar, devemos confrontar as muitas formas pelas quais, como Israel, esquecemos Deus em nossa vida cotidiana. Moldamos ídolos de carreira, relacionamentos e ideologias. Participamos de cultos litúrgicos, mas nossos corações estão longe do Senhor. A dura repreensão do Evangelho é dirigida àqueles que pensam estar próximos de Deus por causa de atividades religiosas, mas não reconhecem Cristo no pobre, na Eucaristia ou nas Escrituras. Se a Quaresma é um deserto, então o Domingo de Laetare é a flor que desabrocha e anuncia esperança. Mas essa flor só floresce no solo do arrependimento, da humildade e de um profundo desejo de ser lembrado novamente por Deus.
Por fim, este tema nos convida a imitar a memória de Deus em nossos relacionamentos com os outros. Numa cultura de abandono e indiferença, lembrar de alguém é um ato sagrado. Somos chamados a lembrar dos pobres, dos solitários, dos idosos, dos esquecidos em nossas comunidades. Assim como Moisés se colocou na brecha para interceder por seu povo, também somos chamados a interceder pelos outros em oração e presença. A Páscoa trata-se de nova vida, não apenas para nós mesmos, mas para todos aqueles que lembramos diante do trono da misericórdia de Deus. Ser lembrado por Deus é alegrar-se, e lembrar dos outros com amor é participar da alegria do próprio Deus.
Oxalá ouvísseis hoje a sua VOZ: não fecheis os vossos corações! (Sl 95,7)
Shalom!
© Pe. Chinaka Justin Mbaeri, OSJ
Seminário Padre Pedro Magnone, São Paulo, Brasil.
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