POR QUE DEUS NOS “PROVA”?
Primeira Leitura: Eclesiástico 2,1-11
Salmo Responsorial: Sl 36(37),3-4.18-19.27-28.39-40
Evangelho: Marcos 9,30-37
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A ideia de sofrimento como um teste de fidelidade não é apenas desconfortável; para muitos, é revoltante. Se Deus é onisciente, por que Ele submete as pessoas a dificuldades como se não soubesse o que está em seus corações? Um Deus todo-poderoso e onividente não deveria ser capaz de discernir quem é fiel sem precisar lançá-los ao fogo da provação? Essa questão se torna ainda mais angustiante quando observamos a realidade: os justos sofrem enquanto os perversos prosperam, a corrupção compensa, e as orações por alívio muitas vezes parecem não ser atendidas. A ideia de que o sofrimento seja um teste divino é altamente controversa, não apenas porque desafia a lógica humana, mas porque parece contradizer a própria justiça de Deus. Se o sofrimento serve para refinar a fé, por que tantas pessoas boas desmoronam sob seu peso, enquanto aqueles que não se importam com Deus parecem florescer? Esse dilema tem levado muitos a duvidar da bondade de Deus ou até mesmo a abandonar a fé.
A Primeira Leitura (Eclesiástico 2,1-11) enfrenta diretamente essa questão, começando com um aviso claro: “Filho, se te apresentas para servir ao Senhor, permanece firme na justiça e no temor, e prepara tua alma para a provação.” Essa não é uma possibilidade, mas uma certeza. O texto não promete conforto àqueles que buscam a Deus, nem sugere que a fé levará a bênçãos imediatas. Pelo contrário, declara que a fé traz provação, como se o sofrimento fosse um rito de iniciação para aqueles que ousam seguir a Deus. O conceito hebraico aqui é “נִסָּיוֹן” (Nissayon), que significa “teste” ou “prova”, mas não no sentido de Deus precisar descobrir algo desconhecido sobre uma pessoa. No pensamento judaico, um נִסָּיוֹן não é para que Deus aprenda algo novo sobre alguém, mas para que a pessoa manifeste sua fé na prática. Trata-se de um conhecimento experiencial, uma fé que não se prova em palavras, mas em ações. O mesmo termo aparece em Gênesis 22,1, quando Deus “testa” Abraão ao pedir-lhe que sacrifique Isaac. Deus não precisava desse teste para saber se Abraão era fiel, Ele o testou para que a fé de Abraão se tornasse real, visível e concreta na escolha e na obediência.
Essa leitura nos obriga a encarar uma verdade desconfortável: a fé não tem valor real até ser testada. Palavras são fáceis. É simples declarar lealdade a Deus quando não há riscos. Mas quando o sofrimento chega, quando a oração parece não ser respondida, quando o mundo se volta contra nós, é aí que a fé se revela pelo que realmente é. Muitos afirmam confiar em Deus, mas o verdadeiro teste vem quando confiar Nele não é mais confortável ou recompensador. Por isso Eclesiástico insiste que aqueles que servem a Deus devem estar preparados, pois a jornada da fé não é apenas uma questão de crença, mas de resistência, refinamento e purificação.
O Salmo Responsorial (Sl 36,3-4.18-19.27-28.39-40) aprofunda essa temática, apresentando o contraste entre os justos e os ímpios. À primeira vista, o Salmo parece contradizer a realidade: fala de como o Senhor protege os justos, não os abandona e lhes concede libertação. Mas a experiência nos diz o contrário: quantos fiéis sofreram injustiça? Quantas orações parecem não ter sido respondidas? Quantos bons morreram sem alívio? A chave para entender este Salmo está na palavra hebraica “בָּטַח” (Batach), que significa “confiar” ou “depositar confiança em”. O salmista não está dizendo que os justos não sofrem, mas que, no escopo completo da justiça divina, Deus não os abandona. O foco não está na libertação imediata, mas na confiança duradoura. E é aqui que muitos falham: confiar em Deus quando Suas promessas parecem distantes, atrasadas ou escondidas atrás do sofrimento. A fé é fácil quando as recompensas são visíveis; a confiança é testada quando tudo parece estar desmoronando.
O Evangelho (Marcos 9,30-37) leva essa ideia à sua expressão mais radical. Jesus, logo após predizer Sua paixão e morte, encontra Seus discípulos discutindo, não sobre fé, nem sobre perseverança, mas sobre quem entre eles era o maior. Eles estavam focados em status, poder e reconhecimento, exatamente o oposto do que Jesus ensinava. O termo grego usado no texto, δοκιμάζω (Dokimazō), significa “testar” ou “provar algo genuíno”. Assim como Eclesiástico descreve a fé sendo testada como ouro no fogo, Jesus apresenta Sua própria paixão como o teste supremo, não apenas para Ele, mas também para Seus seguidores. Os discípulos esperavam um Messias glorioso, mas Jesus revela um Messias sofredor. Eles buscavam vitória por meio do poder, mas Jesus ensina que a verdadeira grandeza é encontrada na humildade, no serviço e na resistência ao sofrimento.
A resposta de Jesus à disputa dos discípulos não é apenas uma correção, mas uma reversão completa do pensamento humano. Ele coloca uma criança no meio deles e declara que quem acolhe o menor é o maior no Reino de Deus. Na sociedade judaica da época, as crianças não tinham status nem importância, então essa declaração era chocante. Mas Jesus enfatiza a mesma verdade que encontramos em Eclesiástico e nos Salmos: os caminhos de Deus não são os caminhos humanos. A fé não é sobre ascender ao poder, mas sobre permanecer firme na humildade. O verdadeiro teste do discipulado não está em ganhar influência, mas em continuar fiel mesmo quando tudo nos for tirado.
Essa leitura desafia o cristianismo moderno, que muitas vezes está obcecado com sucesso, prosperidade e influência. Muitos esperam que a fé traga bênçãos, mas rejeitam a fé quando ela traz tribulações. Muitos desejam as recompensas de Deus, mas poucos aceitam Sua disciplina. Muitos buscam consolo espiritual, mas evitam o teste espiritual. Jesus desmonta essa falsa religião da conveniência: a verdadeira fé não é sobre status, autopromoção ou ganho pessoal. É sobre abraçar a cruz, não como um símbolo abstrato, mas como uma realidade vivida.
As lições práticas dessas leituras são desafiadoras, mas essenciais. Uma fé que nunca é testada não é fé, é apenas crença teórica. O sofrimento não significa que Deus nos abandonou; significa que nossa fé está sendo feita real. Aqueles que buscam a vontade de Deus devem entender que Seu caminho muitas vezes leva por provações, rejeição e perda, porque a fé precisa ser provada, não apenas proclamada. Jesus não fugiu do sofrimento, Ele o abraçou, mostrando que o maior teste de todos é confiar em Deus mesmo quando o custo é tudo.
Então, por que Deus nos prova? Não porque Ele não sabe nossa fé, mas porque precisamos conhecê-la nós mesmos. O teste não é para Deus, é para nós. Quando o sofrimento vier, nos apegaremos a Ele ou O abandonaremos? Quando a fé não for mais fácil, ainda acreditaremos? Quando as provações quebrarem tudo em que antes confiávamos, permaneceremos firmes? Estas são as perguntas que definem a verdadeira fé. E elas só podem ser respondidas na fornalha da provação.
“Oxalá ouvísseis hoje a sua VOZ: não endureçais os vossos corações!” (Sl 95,7)
Shalom!
© Pe. Chinaka Justin Mbaeri, OSJ
Seminário Padre Pedro Magnone, São Paulo, Brasil.
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